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Albano Afonso
Ricardo Resende
Texto de Apresentação da exposição de Albano Afonso na II Mostra do Programa de Exposições 2002 do Centro Cultural São Paulo / setembro 2002.

Enxergar/ Albano Afonso

Não é fácil enxergar. Talvez o mais importante dos sentidos no mundo atual, onde vivemos em função da imagem. Enxergar é mais importante que ver, embora a maioria das pessoas não percebam esta sutil diferença. Enxergar define a capacidade humana sensível de perceber. De sentir emoções por meio da visão. Ver é mais fácil, está mais ligado justamente a esse mundo de imagens rápidas, fugazes, excessivas, veiculadas pelos meios de comunicação em massa que bastam apenas serem vistas de forma também rápida e que, não necessariamente, precisam ser apreendidas pela visão ou decodificadas por nossa capacidade de percepção.

O artista trata a seu modo, das ambigüidades e inquietações existênciais do Homem no limiar do século XXI. Um sujeito "apagado" no seu contexto social.

Não é fácil enxergar, portanto, especialmente a arte contemporânea que pede muita atenção. É uma questão de sensibilidade, uma capacidade que é ou pode ser desenvolvida em qualquer pessoa. Mas, para ser sensível à arte contemporânea, requer o exercício do enxergar. De se sensibilizar, particularmente, pelas coisas simples da vida. Parece ser este o caso dessa série de trabalhos de Albano Afonso, apresentados no ciclo de exposições do Centro Cultural de São Paulo. Ela exige um momento de quem os observa. O artista enveredou por uma investigação plástica, ao empreender uma viagem própria pelo universo de imagens produzidas pela humanidade, no decorrer de sua história. Este material, disponível nos livros de história da arte, é recortado e apropriado pelo artista como referência futura para o repertório de seus trabalhos.

Não só esta série, como parte de sua obra, exige do observador o exercício do enxergar, para perceber este universo construído a partir dos retratos consagrados de artistas como Van Dyck, Pussin, Rembrandt, Liotard e Goya, manipulados num processo de desmaterialização e transmutação, ao fundir sua imagem com auto-retratos procurando manter o mesmo semblante das reproduções originais. Albano Afonso cria deste modo, imagens pontilhistas, fantásticas e surreais.

A partir dessa fusão de reproduções, com os recursos tecnológicos disponíveis no mercado, ele centra no subjetivo ao criar uma relação direta entre aqueles retratos e auto-retratos. Dentro desse processo criativo citacionista, resultado de um gesto quase obsessivo de perfuração, Albano as desintegra e as transforma em imagens com um aspecto rendilhado sob um fundo que se mistura, criando mais uma dimensão que interfere em nosso circuito retiniano e na nossa noção de enfemeridade das imagens que fazem parte do nosso cotidiano. Não se trata, pois de uma pintura ou de uma fotografia em suas concepções usuais. O que está proposto à discussão nestas imagens híbridas, geradas a partir desta nova linguagem pictórica, é a criação de uma outra realidade, fantasiosa, construída em outra dimensão transcendente, em que podem participar, tanto a imagem do próprio artista, carregada de uma certa teatralidade, como a do observador, ao se colocar dentro de um terceiro plano. O do artista transmutando-se em "personagens" da própria história da arte.

Para obter este resultado, os auto-retratos são ajustados no computador para, cuidadosamente, virem a se fundir, quando sobrepostos. É como se o artista estivesse se transformando no grande mestre retratado e vice-versa, que se constitui no limite máximo da representação fragmentada do indivíduo contemporâneo. O artista trata a seu modo, das ambigüidades e inquietações existênciais do Homem no limiar do século XXI. Um sujeito "apagado" no seu contexto social.

Ricardo Resende

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