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Um muro de tijolos e a cidadania interrompida.
Márcio Rolo/março de 2002.

Bom dia/Boa tarde - lado de fora
(foto: divulgação)

O muro de tijolos em forma de semi-círculo que a artista Carla Guagliardi construiu na entrada lateral do centenário Paço Imperial suscitou críticas raivosas de algumas personalidades do nosso meio cultural e político, entre elas a de um deputado tradicionalmente identificado com o pensamento progressista de esquerda e a de um articulista do jornal O Globo dono de uma larga folha de serviços prestados para os governos neo-liberais.

O trabalho está incluído na exposição Morro/Labirinto, organizada pelo Institut Inter Nations, que convidou artistas brasileiros e alemães a uma leitura de contrastes visando estimular a discussão e a reflexão.

Uma pena que a experiência estética proporcionada pelo empilhamento de argila e argamassa suscite reações tão apaixonadas, pouco reflexivas e apressadas. Pois o muro, construído com muito menos tijolos do que seriam necessários para se fazer um quarto de fundos, destes que se vêem nas habitações das camadas de baixa renda, desvela, na sua rudeza, um jogo de relações complexas, que valeria a pena ser examinado com cuidado, já que através dele poderíamos apreender um pouco do que somos.

Sobre as questões do olhar já temos alguma reflexão acumulada. Michel Foucault discorreu longamente sobre a violência do olhar, sobre o controle conferido àquela parcela da população que olha sobre a que é olhada; em última instância o pensador francês nos ensinou como o poder se engendra e se estrutura como visibilidade.A fábrica, a escola, o hospital, o presídio e até mesmo o jardim zoológico são formas de dominação assentadas na visibilidade e na transparência.
No entanto, segundo ele, este poder não é uni-direcional. Ele pode ser apropriado pelos destituídos e revertido; sob circunstâncias muito especiais ele pode vir a ser um dispositivo de libertação.

Michel Foucault discorreu longamente sobre a violência do olhar, sobre o controle conferido àquela parcela da população que olha sobre a que é olhada; em última instância o pensador francês nos ensinou como o poder se engendra e se estrutura como visibilidade.

A compulsão de olhar a favela, quase uma mania nacional, toma na produção cultural brasileira matizes diversos. Há desde os documentários de artistas como Eduardo Coutinho que em seus filmes Santo Forte e Babilônia 2000 compulsa a favela tentando desvendar a lógica perversa que sustenta a aliança entre a classe dominante e as camadas marginalizadas, com o intuito de revertê-la, até outras manifestações que teriam como finalidade a manutenção deste estado de desigualdade. Exemplo disto são os programas humorísticos de televisão que não se cansam de mostrar a juventude bem-nascida carioca tomando banho no piscinão de Ramos ou freqüentando os bailes de debutantes da Mangueira verde e rosa. Tornou-se moda entre nós o elogio aristocrático do kistch e do brega, o discurso feliz capaz de garantir e sustentar nossas diferenças.

Esta mania de olhar o diferente não é uma coisa recente na história. Sabemos que desde que a arte conquistou sua autonomia frente às outras esferas do conhecimento o tema da desigualdade social logo se evidenciou. As cenas de camponeses pobres de Bruegel, os terríveis retratos de interiores ou o par de botas de Van Gogh e até mesmo o quadrado branco suprematista de Malevich, pintado no contexto das preocupações estéticas dos artistas que participaram da Revolução Russa, são exemplos que acorrem imediatamente à memória quando o tema é a cultura dos despossuídos.

Também no Brasil o tema em questão remete o artista para referenciais inequívocos. Campeões de desigualdades sociais que somos, criamos em contrapartida uma sólida tradição de pensar o desigual. O Cinema Novo, os Centros Populares de Cultura, a teatralização erotisada e violenta do jogo protagonizado pelas classes sociais no carnaval carioca e as agudas investigações de Hélio Oiticica que desvelou a cultura construtiva da favela em seus parangolés e labirintos são alguns dos referenciais obrigatórios com que deverá dialogar o artista contemporâneo preocupado em abordar questões relativas à marginalização social.

O trabalho suscita relações que vão muito além do desejo de provocar uma reação incômoda no espectador ou uma associação gratuita ao mau-gosto e ao perverso. Vai muito além da estética populista, da denúncia fácil, onde se educou parte significativa da direita e da esquerda brasileira, bem representada nos quadros que retratam mendigos e retirantes.

Abstenho-me de fazer uma análise mais apropriada da exposição Morro/Labirinto, que ocupou os salões do Paço Imperial, e atenho-me a fazer algumas considerações sobre o trabalho da artista Carla Guagliardi, a meu ver injustamente criticada no artigo do Globo.

É verdade que o muro 'feinho' (como se referiu um passante) lembra a grande feiúra que tomou conta dos arredores das cidades brasileiras industrializadas e de quase todo o interior do Brasil. Os anos de ditadura política acompanhados dos anos de ditadura econômica tornaram o Brasil um país muito feio
Como são feias as nossas cidades com suas casas de material barato e de péssima qualidade, arquiteturas improvisadas que mal se sustentam em pé. Como é terrível chegar nas cidades históricas e comparar a harmonia do traçado colonial com o terrível estado causado pela falta de um plano diretor capaz de organizar a ocupação espacial. A improvisação, o espontaneismo e o individualismo das soluções relativas às questões de moradia definiram o aspecto formal das nossas cidades.São expressões daquilo que se mostra de modo contundente nos índices estatísticos: a concentração de renda selvagem ocorrida na última década e a interrupção da cidadania.

Sem sombra de dúvida que o muro anexado ao prédio tombado pelo Patrimônio Histórico nos obriga a pensar na feiúra de nossas cidades. Mas não é somente na denúncia da ausência de políticas de habitação para a população de baixa renda, na denúncia da especulação imobiliária, da falta de planejamento e de urbanização que residem a força do trabalho de Carla.


Enganam-se aqueles que viram na proposição da artista uma simples provocação, uma transposição imediata da chamada "estética da favela" para os termos da arte contemporânea. O trabalho suscita relações que vão muito além do desejo de provocar uma reação incômoda no espectador ou uma associação gratuita ao mau-gosto e ao perverso. Vai muito além da estética populista, da denúncia fácil, onde se educou parte significativa da direita e da esquerda brasileira, bem representada nos quadros que retratam mendigos e retirantes. (Portinari, o pintor das desigualdades que tanto deleitou nossa cultura oficial, talvez seja o melhor representante desta estética).

O muro em questão, capaz de irmanar esquerdistas e neo-liberais, é, além de feio, sutil, irônico e instigante. Com o nome de Bom dia/Boa tarde ele é somente um pré-texto, a condição para a emergência do trabalho. Mais do que no amontoado de tijolos é no complexo de relações que ele suscita que seu significado deverá ser apreendido.

Mais do que delimitar o mundo representado pela rua, e o mundo representado pelo museu, o muro faz emergir o discurso do isolamento da instituição pública. É na fissura, no hiato, é neste meio físico que isola o muro feio de tijolos do belo piso de granito do Paço Imperial que a instalação de Carla vai encontrar o seu sentido mais profundo.

Coerente com o seu percurso iniciado com as esculturas em plástico, água e ferro, a artista, através da instalação, dá continuidade ao diálogo que ela mantém com as referências da arte contemporânea ligadas à desestetização do objeto. Esta operação possibilitará a ela o trânsito entre um discurso alicerçado na idéia de poder e um discurso sobre o objeto estético. Vejamos como isto acontece.

O trabalho caminha na vereda aberta pelos artistas minimalistas americanos que propuseram uma "de-subjetivação" do processso de construção do objeto artístico ao investigar as formas de produção dos artefatos industriais e tecnológicos. Vai também na esteira das pesquisas de des-objetificação de Lígia Clark, que de modo ainda mais radical que os artistas americanos recusou a tradição ocidental centrada no objeto ao remeter o sentido da arte para as relações interativas do espectador com o objeto artístico.

Carla Guagliardi, dialogando com estas idéias, embora não projete questões de sua subjetividade na construção do muro interrompe intencionalmente o curso linear da apreensão econômica, própria do minimalismo, ao utilizar o tosco material de argila cozida e processos tecnológicos arcaicos próprios da construção das moradias da população pobre do Brasil. Operando uma redução de ordem estética ela desmistifica a ilusão (ideológica) centrada na esperança que o povo ainda deposita nas invenções científicas ao mostrar que no país dos contrastes os usos e os prazeres proporcionados pela sofisticação tecnológica - a medicina, a moradia e a informática - são somente para o deleite de uns poucos.

A instalação dialoga também com o outro pólo de investigação dos artistas minimalistas, isto é, o das relações que o objeto mantém com o seu entorno. O objeto artístico é sempre, em tal estética, algo contextualizado. (O melhor exemplo disto é o trabalho de Serra que expôs numa praça pública de Nova York um grande muro de ferro interrompendo o fluxo habitual dos passantes, o que obrigou a Prefeitura a retirar a obra mediante as reações iradas da população).

Bom dia/Boa tarde - lado de dentro
(foto: divulgação)

O muro, pensado especialmente para ocupar a lateral do Paço Imperial, delimita o espaço do museu e o espaço da rua, o espaço sagrado da cultura e o espaço caótico da vida, em última instância ele agudiza o contraste entre a cultura oficial e a cultura oficiosa e torna clara a distância que hoje separa os dois Brasis. Acredito que a consciência crua da impossibilidade de um encontro, a exposição impiedosa de uma des-razão não-comunicativa, em última instância o desvelamento da solidão a que se vê reduzida a população brasileira tocaram em questões profundas de nosso imaginário social e provocou tanta irritação em alguns visitantes. Mas é justamente aí, nesta ferida, que reside o vigor do trabalho.

Mais do que delimitar o "mundo da vida" - o mundo de fora representado pela rua- e o mundo representado pelo museu, o muro minimalista faz emergir o discurso do isolamento da instituição pública. É na fissura, no hiato, é neste meio físico que isola o muro feio de tijolos do belo piso de granito do vetusto Paço Imperial (subordinado ao Ministério da Cultura) que a instalação de Carla vai encontrar o seu sentido mais profundo. Ao expor o isolamento, a solidão, a impotência e a interrupção da cidadania a que se vê condenada boa parte dos brasileiros a artista recusa o esteticismo oportunista e aponta para uma fragilidade da própria idéia da exposição ao convidar alguns artistas da classe média a conviver alguns dias numa favela e então realizar um trabalho a partir desta vivência.

Talvez fosse o caso de sugerir à curadoria que desse continuidade a esta proposta e convidasse uma dúzia de artistas da favela a conviver uns tempos nos bairros das classes bem-nascidas brasileiras e alemãs visando a realização de uma exposição. Na favela, é claro. Lá, talvez pudéssemos enxergar o tamanho de nosso isolamento.

Márcio Rolo é artista plástico, historiador e professor de matemática.

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