Enganam-se aqueles que viram na proposição da artista
uma simples provocação, uma transposição
imediata da chamada "estética da favela" para os
termos da arte contemporânea. O trabalho suscita relações
que vão muito além do desejo de provocar uma reação
incômoda no espectador ou uma associação gratuita
ao mau-gosto e ao perverso. Vai muito além da estética
populista, da denúncia fácil, onde se educou parte
significativa da direita e da esquerda brasileira, bem representada
nos quadros que retratam mendigos e retirantes. (Portinari, o pintor
das desigualdades que tanto deleitou nossa cultura oficial, talvez
seja o melhor representante desta estética).
O muro em questão, capaz de irmanar esquerdistas e neo-liberais,
é, além de feio, sutil, irônico e instigante.
Com o nome de Bom dia/Boa tarde ele é somente um pré-texto,
a condição para a emergência do trabalho.
Mais do que no amontoado de tijolos é no complexo de relações
que ele suscita que seu significado deverá ser apreendido.
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que delimitar o mundo representado pela rua, e
o mundo representado pelo museu, o muro faz emergir
o discurso do isolamento da instituição
pública. É na fissura, no hiato, é
neste meio físico que isola o muro feio de tijolos
do belo piso de granito do Paço Imperial que
a instalação de Carla vai encontrar o
seu sentido mais profundo. |
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Coerente com o seu percurso iniciado com as esculturas em plástico,
água e ferro, a artista, através da instalação,
dá continuidade ao diálogo que ela mantém
com as referências da arte contemporânea ligadas à
desestetização do objeto. Esta operação
possibilitará a ela o trânsito entre um discurso
alicerçado na idéia de poder e um discurso sobre
o objeto estético. Vejamos como isto acontece.
O trabalho caminha na vereda aberta pelos artistas minimalistas
americanos que propuseram uma "de-subjetivação"
do processso de construção do objeto artístico
ao investigar as formas de produção dos artefatos
industriais e tecnológicos. Vai também na esteira
das pesquisas de des-objetificação de Lígia
Clark, que de modo ainda mais radical que os artistas americanos
recusou a tradição ocidental centrada no objeto
ao remeter o sentido da arte para as relações interativas
do espectador com o objeto artístico.
Carla Guagliardi, dialogando com estas idéias, embora
não projete questões de sua subjetividade na construção
do muro interrompe intencionalmente o curso linear da apreensão
econômica, própria do minimalismo, ao utilizar o
tosco material de argila cozida e processos tecnológicos
arcaicos próprios da construção das moradias
da população pobre do Brasil. Operando uma redução
de ordem estética ela desmistifica a ilusão (ideológica)
centrada na esperança que o povo ainda deposita nas invenções
científicas ao mostrar que no país dos contrastes
os usos e os prazeres proporcionados pela sofisticação
tecnológica - a medicina, a moradia e a informática
- são somente para o deleite de uns poucos.
A instalação dialoga também com o outro
pólo de investigação dos artistas minimalistas,
isto é, o das relações que o objeto mantém
com o seu entorno. O objeto artístico é sempre,
em tal estética, algo contextualizado. (O melhor exemplo
disto é o trabalho de Serra que expôs numa praça
pública de Nova York um grande muro de ferro interrompendo
o fluxo habitual dos passantes, o que obrigou a Prefeitura a retirar
a obra mediante as reações iradas da população).
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Bom dia/Boa tarde - lado de dentro
(foto: divulgação) |
O muro, pensado especialmente para ocupar a lateral do Paço
Imperial, delimita o espaço do museu e o espaço
da rua, o espaço sagrado da cultura e o espaço caótico
da vida, em última instância ele agudiza o contraste
entre a cultura oficial e a cultura oficiosa e torna clara a distância
que hoje separa os dois Brasis. Acredito que a consciência
crua da impossibilidade de um encontro, a exposição
impiedosa de uma des-razão não-comunicativa, em
última instância o desvelamento da solidão
a que se vê reduzida a população brasileira
tocaram em questões profundas de nosso imaginário
social e provocou tanta irritação em alguns visitantes.
Mas é justamente aí, nesta ferida, que reside o
vigor do trabalho.
Mais do que delimitar o "mundo da vida" - o mundo de
fora representado pela rua- e o mundo representado pelo museu,
o muro minimalista faz emergir o discurso do isolamento da instituição
pública. É na fissura, no hiato, é neste
meio físico que isola o muro feio de tijolos do belo piso
de granito do vetusto Paço Imperial (subordinado ao Ministério
da Cultura) que a instalação de Carla vai encontrar
o seu sentido mais profundo. Ao expor o isolamento, a solidão,
a impotência e a interrupção da cidadania
a que se vê condenada boa parte dos brasileiros a artista
recusa o esteticismo oportunista e aponta para uma fragilidade
da própria idéia da exposição ao convidar
alguns artistas da classe média a conviver alguns dias
numa favela e então realizar um trabalho a partir desta
vivência.
Talvez fosse o caso de sugerir à curadoria que desse
continuidade a esta proposta e convidasse uma dúzia de
artistas da favela a conviver uns tempos nos bairros das classes
bem-nascidas brasileiras e alemãs visando a realização
de uma exposição. Na favela, é claro. Lá,
talvez pudéssemos enxergar o tamanho de nosso isolamento.
Márcio Rolo é artista
plástico, historiador e professor de matemática.
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