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Intimate Technologies/Dangerous Zones
A intimidade mediada
Lucas Bambozzi
Evento: Conferência Intimate Technologies/Dangerous
Zones
Organização: Banff Centre - New
Media Institute, Canadá
Data: 24 a 28 de abril
Objetivos: discutir os efeitos potencializadores
da intimidade a partir das tecnologias de comunicação
móvel, que envolve internet, transmissão sem fio
(wireless), organizadores do tipo handheld/pda, softwares p2p
(peer to peer) e outros.
| (...) seria
uma experiência muito mais densa do que as perspectivas
de análise dos reality shows, da histeria em
torno dos sistemas de vigilancia ou da proliferacao
de câmeras de circuito fechado, apenas pra citar
alguns dos clichês associados ao assunto. |
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O tema da conferencia proposta pelo New Media Institute
do Banff Centre me pareceu mais que apenas conectado
com o universo explorado em meus projetos mais recentes. A participação
me daria a oportunidade de troca e atualização de
informações a respeito das várias questões
que envolvem algumas recentes tecnologias "potencializadoras
de intimidade" no contexto da arte contemporânea. Ou
seja, seria uma experiência muito mais densa do que as perspectivas
de análise dos reality shows, da histeria em torno dos
sistemas de vigilancia ou da proliferacao de câmeras de
circuito fechado, apenas pra citar alguns dos clichês associados
ao assunto. Na melhor das intenções de compartilhar
as impressões durante as discussões produzi o relato
que se segue.
O encontro foi na verdade uma maratona de mais de 12 horas de
discussão intensa por dia, reunindo cerca de 30 convidados
entre acadêmicos, artistas, ensaistas, desenvolvedores de
softwares, teóricos, curadores e cientistas, principalmente
da Europa e América do Norte. Além dos apresentadores,
o público foi engrossado por artistas do programa de residência
temática conduzido pelo Banff. Esses encontros acontecem
anualmente, sempre debatendo algum assunto de relevância
atual e são concebidos e coordenados por Sara Diamond,
que conduz com mão firme todos os paineis e discussoes.
O evento surpreendeu em todos os sentidos. Um dos principais
convidados, o aspirante a ciborg, o canadense Steve Mann
<www.wearcam.org/cyborg.htm>
não compareceu em carne e osso, mas conversou com os presentes
através de video-conferência. Os ecos de sua fala
circularam no decorrer dos dias seguintes, tendo sido mencionado
muitas vezes de forma bastante crítica, por ter criado
para si próprio um modelo que tende mais ao contrangimento
das possibilidades de percepção do que de sua amplificação.
Supresas mais concretas foram proporcionadas por participantes
um pouco mais distanciados do eixo Canada-Reino Unido, países
com massiva representação no encontro. Entre estes
o austríaco Konrad Becker, diretor do
Institute for New Culture Technologies <www.world-information.org>,
que mostrou uma panorâmica das ações de resistência
associados a novas tecnologias e o espanhol Daniel Garcia
Andujar, com seu projeto low-tech, Technologies
to the People <www.irational.org/tttp>,
uma rede imaginária de informação e atuação
política e artística, com forte acento conceitual
e irônico.
Rematerialização
Com a popularização dos sistemas GPS [Global
Positioning System] fala-se cada vez mais em "augmented
reality" [AR] um conceito um pouco diferente da
realidade virtual, que aplica ambientes virtuais aos ambientes
reais e os atualiza em tempo real, em sincronismo. O grupo inglês
Blast Theory <www.blasttheory.com>
vem trabalhando nessa linha, mesclando realidade e ficção
em jogos localizados nas ruas da cidade e utilizando voluntários,
ou seja, pessoas de verdade. Urbanistas já estudam possibilidades
de proporcionarem ambientes diferenciados para diferentes grupos
de indivíduos. Alguem no centro de Times Square por exemplo,
poderia utilizar óculos especiais para ter acesso a uma
cidade despida dos opressivos displays publicitários que
caracterizam aquele pedaço de Nova York.
Matt Locke, um dos moderadores do evento e atualmente
no cargo de diretor de criação de projetos de tecnologias
wireless da BBC Imagineering [Reino Unido] propôs
uma rede pública de armazenamento, troca e disponibilização
de informações [públic cache]. O sistema,
bastante utópico, foi desenvolvido como um workshop durante
os dois últimos dias. Seria constituído por computadores
de mão do tipo Palm [handhelds] talvez descartáveis,
e se assemelharia ao compartilhamento de jornais que os usuários
de metrô em Londres ou Nova Yorque praticam. Como viabilizar
essa camaradagem high-tech num país como o Brasil, onde
os bens tecnológicos custam a vida de muitos cidadãos,
foi um dos vários desafios conceituais do protótipo.
Informalidade: designing from the gut
Ice Cream for all é o nome de um projeto
que utiliza processos informais para a criação de
softwares. Também sediado no Reino Unido, o projeto conduzido
por Simon Pope ficou bastante conhecido por compartilhar
na rede a receita de um certo sorvete italiano e solicitar aos
usuários a comprovação de sua autenticidade
<bak.spc.org/iod>.
O indivíduo
nunca foi um alvo tão valioso. Para que exerça
esse valor porém, ele tem cada vez mais que abrir
mão de liberdades [a privacidade entre elas]
antes consideradas preciosas. Nada apocalíptico,
ainda, mas não há como não dizer
que muitos
alertaram sobre isso. |
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Muitas vezes veio à tona uma necessidade de clareamento
das indefinições entre termos como jogar/brincar
[play] e performance. É nítido que os games ocupam
cada vez mais espaços nas galerias e nos estudos acadêmicos,
ao mesmo tempo em que são uma das mais rentáveis
indústrias atuais. As críticas aqui podem vir e
efetivamente vieram de todos os lados. Ao mesmo tempo em que podem
ser ferramentas para aprendizado ou formas lúdicas de se
relacionar com máquinas, os games são também
demasiadamente orientados para um públco masculino e carregam
genericamente conteúdos de violência. Aprendizado
pode se transformar em conhecimento ou não. Pode por exemplo
ser apenas uma forma de informação e proficiência
em torno de produtos específicos. As estatísticas
e a seriedade dos estudos [falo de pesquisas independentes e não
associadas às grandes corporações] apenas
engatinham em todos os casos.
Da mesma forma as atividades que gravitam em torno da privacidade
podem fazer apenas com que tudo vire moda e o assunto vire 'sabonete".
São implicações absolutamente intrincadas
e que apareceram de forma reincidente ao longo de todos os dias
de discussão.
O que poderia há pouco tempo ser considerado uma inconsequência
no campo da programação e design já pode
ser visto como uma ousadia necessária e bem vinda. Não
exatamente quanto à funcionalidade ou previsibilidade técnica
dos sistemas mas pelo fato de que elementos subjetivos começam
a ser incorporados ao desenvolvimento de produtos e tecnologias.
Menos como estratégias de guerra e talvez mais como estratégias
de consumo, parece que as coisas se misturam. O indivíduo
nunca foi um alvo tão valioso. Para que exerça esse
valor porém, ele tem cada vez mais que abrir mão
de liberdades [a privacidade entre elas] antes consideradas preciosas.
Nada apocalíptico, ainda, mas não há como
não dizer que muitos alertaram sobre isso.
Enquanto ainda pensamos que somos humanos
Sha Xin-Wei, do Georgia Institute of
Technology [EUA] mostrou mais uma vez seu projeto T-Garden,
aprimorado em termos de precisão e possibilidades participativas,
desde sua primeira apresentação em 95 no Siggraph
95 em New Orleans. Trata-se de um sistema interativo que permite
uma espécie de orgia entre vários usuários,
que compartilham roupas especiais e acionam sons, formas visuais
e outras experiências sensoriais. Em termos participativos
Lygia Clark foi uma das que entre nós
foi além nesse campo mas não há como não
avaliarmos positivamente o uso da tecnologia como elemento potencializador
e restaurador de nossos talvez exauridos sentidos mais básicos
e físicos. Thecla Shiporst, candidata
a Phd pelo programa CaiiA-Star apresentou o estágio
atual de seu projeto que prevê vestimentas e acessórios
inteligentes para o corpo, também devotados a essa interface
mais eficiente entre a 'pele' e o ambiente que nos circunda. O
termo 'afectionate computing' é o que
vem sendo usado para designar de forma 'hype', algo que nossos
instintos [potencializados digamos, pela própria ausência
de roupa] pode nos proporcionar de forma bem eficiente.
Anne Nigten, uma das diretoras do V2
Lab <www.v2.nl>,
sediado em Roterdam, expôs a estrutura de funcionamento
do Instituto, que nasceu a partir do princípio de que as
midias se movimentam constantemente e a instabilidade é
não apenas sua mais interessante característica
como um ambiente propício para criação. Oferece
ferramentas para o desenvolvimento de softwares, lança
publicações regulares e organiza um importante festival,
o Deaf [dutch electronic art festival]. O grupo
apoia idéias não usuais, valoriza descobertas acidentais,
e espera que os artistas participem efetivamente de processos
não-definidos e não-acabados. Reflexo da flexibilidade
de suas ações a presenca do V2 em um evento no Brasil
ainda este ano deve acontecer não apenas através
de alguém do grupo mas também do artista espanhol
Daniel Garcia Andujar.
Houve ainda representantes do departamento de desenvolvimento
de produtos da Nokia, apresentação
de anti-tecnologias, como o projeto PlisioPhone,
que simula através de complexa tecnologia, velhos brinquedos
de comunicação como os telefones de latinha ou o
envio de mensagem SMS através de aparelhos convencionais.
Identidade e cultura
Participei do painel intitulado Data Bodies/Actual Bodies,
um tema que a princípio me causou um certo desconforto
por não estar diretamente envolvido em pesquisas sobre
o corpo e sua perspectiva de obsolescência ou não.
Porém a organização eclética da mesa
pôde proporcionar uma liberdade de colocações
bastante produtiva. Entre as afirmações mais estritamente
políticas feitas por Konrad Becker [o
austríaco neo-anarquista do Institute for New Culture
Technologies] e o questionamento de toda a movimentação
em torno dos efeitos da privacidade apontadas por Giles
Lane [Research Fellow, Royal College of Art,
UK], o painel funcionou como uma reflexão sobre a identidade
e diferença cultural, sugerida em parte por trabalhos de
minha autoria e pelos apresentados por Karen Wong [coordenadora
do Studio XX e Salon 40 em Montreal]
e Nina Czegledy [curadora independente], que
também mencionaram obras que transpõem conceitos
de um universo privado para o espaço público. O
painel foi contextualizado assim por experiências de reversão
e ironia onde algumas questões reverberaram sem respostas
muito precisas: qual o papel do artista nesse contexto? Será
este capaz de refazer a utopia do link entre micro e macro politica?
Privacidade faz parte da economia da escassez? Entre as perguntas
e tentativas de respostas, mais uma vez foi ressaltada uma ideia
de resistência e de afirmação de diferenças.
Conclusões
| A privacidade
pode ser um hábito, o direito burguês típico
das sociedades ocidentais, uma herança da Reforma
e do Iluminismo, mas o que pode assegurar é que
a privacidade não é apenas esse bem tão
falado nos dias atuais, mas uma fresta por onde se infiltram,
em nome da segurança e do bem estar, alguns dos
mecanismos mais sutilmente opressores existentes atualmente. |
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O que pode ser considerado invasão de privacidade muda
geograficamente, num mundo globalizado ou não. Assegurar
diferenças ou aceitar tecnologias com positivismo extramado
são formas que extrapolam uma questão de consciência.
A privacidade pode ser um hábito, o direito burguês
típico das sociedades ocidentais, uma herança da
Reforma e do Iluminismo, mas o que pode assegurar é que
a privacidade não é apenas esse bem tão falado
nos dias atuais, mas uma fresta por onde se infiltram, em nome
da segurança e do bem estar, alguns dos mecanismos mais
sutilmente opressores existentes atualmente. É também,
sem dúvida, uma oportunidade de comercialização
de novos produtos por parte de uma industria ávida por
transformar as incongruências da vida urbana em soluções
que custam dinheiro e restringem liberdades. A pesquisa dos hábitos
toma lugar. As motivações, preferências e
comportamento do usuário nem sempre são utilizadas
a seu favor.
E incluindo-se a identidade nesse processo, mais perguntas ficam
no ar: a formação de tecnologias universais é
uma utopia? O ambiente da conectividade sem fios [fala-se em wireless
world, uma comunidade de alguns milhões de usuários]
pode estabelecer a intimidade com alvo e parâmetro, mas
até que ponto as diferenças são respeitadas?
O Banff Centre possui espaços expositivos
também. Na galeria principal, uma mostra com o título
de Imaginary Standard Distance da artista de
Vancouver Allyson Clay, oportunamente agendada
para a ocasião, mostrou vídeos, pinturas, textos,
pequenas esculturas e fotografias. Apesar da boa sugestividade
do título, o resultado evidenciou apenas a estratégia:
várias meios com o fim específico de dar conta do
tema [ou: um certo amontoado de coisas diferentes sobre a mesma
coisa, como apontaram alguns].
Enfim, tudo sugere que Privacidade é mais que um assunto
em pauta. Oportunidade ou não a essa altura os participantes
estão totalmente imersos na trama e nas armadilhas da privacidade.
As questões políticas daí resultantes estão
longe de se saturarem e podem, pelo contrário, complicar
nossa vida. A mídia, os curadores e artistas em busca de
temas atuais produzem conjuntamente uma histeria que causa uma
idéia de cansaço, a sensação de que
o assunto envelheceu rapidamente. Mas esse cansaço não
deve ser visto como amadurecimento das questões envolvidas.
Intimidade é um valor, um conceito em permanente negociação.
Lucas Bambozzi é
videomaker, artista e curador.
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