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Invenção de Mundos
Moacir dos Anjos
Texto de Apresentação
do catálogo da exposição Espelho Cego
- Seleção de uma Coleção Contemporânea.
Ao longo de poucos e intensos anos, Marcantonio Vilaça
se lançou, com vontade igual, às margens e ao centro
do mundo espesso da arte de seu tempo, tornando-se reconhecida
parte dele e alargando os sentidos que podem hoje ter os papéis
do galerista ou marchand. Quer em seu país ou fora dele,
em rotina de trabalho incessante, vislumbrou sempre o alcance
público possível de suas ações para
a constituição de uma visualidade contemporânea
brasileira e para integrá-la ao cânone artístico
mundial, forçando este a tornar-se mais inclusivo e amplo.
| Aproximando
o que parece aos outros distante, o colecionador
adulto e a criança que descobre o seu entorno
criam, e a todo momento expandem, inventários
simbólicos e físicos que afirmam
o lugar singular que ocupam no mundo. |
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Deitando um olhar amoroso sobre as obras com que conviveu por
afeição e ofício, Marcantonio Vilaça
divulgou seus criadores com a energia e o zelo de quem confunde
arte e vida. É natural, portanto, que tenha feito da casa
abrigo íntimo para o que mais o movia, formando uma das
mais significativas coleções privadas da arte brasileira
produzida nas décadas de 1980 e 1990, enriquecida ainda
por inclusões pontuais e certeiras de obras de artistas
vindos de lugares tão distintos como o Japão e o
Líbano. Marcada pela diversidade e pela excelência,
sua coleção se afasta de qualquer diretriz programática,
revelando, ao contrário, a curiosidade e a ousadia que
animaram sua criação.
Walter Benjamin considerava o colecionismo (no caso dele, de
livros) um modo de renovar o mundo, de inaugurá-lo novamente
a cada aquisição feita. Haveria nesse desejo, segundo
o filósofo alemão, uma aproximação
com o universo infantil, onde a recriação da existência
é realizada por meio de seguidas apropriações:
paredes riscadas, superfícies cobertas por figuras, coisas
nomeadas a gosto, o ajuntamento de objetos os mais diversos e
estranhos. Aproximando o que parece aos outros distante, o colecionador
adulto e a criança que descobre o seu entorno criam, e
a todo momento expandem, inventários simbólicos
e físicos que afirmam o lugar singular que ocupam no mundo.
Por ter nascido e vivido seus primeiros anos no Recife, é
certo que Marcantonio Vilaça aqui tenha primeiro inventado
o mundo, fazendo seus os cheiros, sabores, sons, paisagens e cores
que então mais o fascinavam e atraíam. Foi também
no Recife que deu início, sem o saber ainda, ao que seria
a sua abrangente coleção de arte contemporânea.
Expor, nessa mesma cidade e anos depois dessa inaugural invenção
de vida, parte grande do acervo formado no curso do tempo que
teve significa aproximar aquele repertório atávico
de símbolos aos outros tantos que as obras que adquiriu
carregam em potência. É sobre esse percurso de renovação
constante da própria existência que, de modo claro
e justo, a mostra Espelho Cego dá testemunho.
Moacir dos Anjos
é diretor geral do Museu de Arte Moderna Aloísio
Magalhães.
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