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Paisagens Interiores
Guy Amado

Love's House foi uma exposição coletiva que aconteceu em um hotel de mesmo nome, no bairro da Lapa, centro do Rio de Janeiro, durante alguns poucos dias, em abril/maio de 2002, realizada pelo AGORA, Agência de Organismos Artísticos [ www.agora.etc.br ].

Estive na "casa do amor" no dia da abertura da exposição, há quase seis meses. Agora, através do livro, retomo aquela visita estranha e cheia de surpresas. Para mim, estar naquela região, já era em si uma experiência nova, pois muito embora a Lapa tenha se tornado um lugar "in" da noite carioca alternativa, não é um local que costumo freqüentar.

A primeira coisa que me retornou à memória ao "caminhar" pelos corredores e cômodos do livro foi o cheiro forte que havia naquele prédio. Lembro de ter pensado "como alguém pode 'amar' num lugar com um cheiro como este?!". Mas esta era apenas uma das "adversidades" a enfrentar para se chegar à exposição. Havia a estranha e misteriosa escada, que mais parecia flutuar no vão central do prédio. Do lado de fora, o fluxo caótico de pessoas de todas as "tribos", os vários ruídos da rua; um intenso fluxo caótico de informações para todos os cinco (oi mais, sabe-se lá) sentidos.

Tudo isso, ao contrário do que pode estar parecendo até agora neste testemunho, foi extremamente positivo, pois ajudou a despertar e aguçar meus sentidos, me colocando num nível maior de excitação, o que certamente tornou a minha experiência da exposição muito mais intensa. Aqueles "quartos" não poderiam mais estar em outro local que não aquele, pois mesmo que estivessem, me propiciariam uma experiência de natureza diversa, e provavelmente não tão intensa.

imagem: trabalho de Brígida Baltar Quando vamos a uma exposição em um ambiente "formal" (museus, galerias, etc), estamos mais "preparados" para uma apreciação intelectual, pois este ambiente já lhe diz: você está prestes a ver "arte" (promessa muitas vezes frustrada, bem sabemos), e ao se cruzar a entrada destes ambientes quase religiosos, você já se revestiu de uma postura e olhar "treinados" para a arte. Isso não é necessariamente um problema em si, mas pode nos deixar menos abertos e permeáveis para uma primeira leitura mais livre e sem compromissos, para fruir a obra de uma forma mais independente, de uma forma mais "na obra em si".

Mas voltemos ao livro agora.

Não sei se foi proposital, mas ao olhar o livro, instantaneamente o achei parecido com uma embalagem de fita de vídeo ou DVD. E depois de folheá-lo pela primeira vez, isto me pareceu fazer sentindo, porque a seqüência das fotos me sugeriu um "travelling" de uma câmera subjetiva pela exposição, quase uma "visita guiada" pelos corredores e quartos daquele hotel, com cortes bruscos para imagens das ruas, ou de outras áreas do próprio hotel, que poderíamos ter visto há pouco, e que ficam voltando como "flashes" na memória, permeando e invadindo a nossa experiência com os trabalhos dos artistas.

Há uma dinâmica de fluxo na seqüência das páginas do livro, um fluxo orgânico, e não tanto linear quanto se pode esperar de um livro ou catálogo. Para mim que estive imerso naquele ambiente da exposição, foi uma experiência muito boa revisitá-lo através do livro. Fico pensando que este livro poderia ser transformado em uma experiência multidimensional, como um web site ou CD-ROM, pois nos permitira um tráfego de forma ainda mais livre e multidirecional do que o livro pode oferecer.

Por outro lado, esta dinâmica de fluxo pode ficar confusa e abstrata para uma pessoa que não tenha ido à mostra. Mas talvez seja exatamente para estas pessoas que exista no final do livro um guia mais linear, com direito a planta baixa e descrição detalhada de cada quarto. Não que o livro seja confuso, mas sim se trata de um livro que permite várias e diversas leituras, em vários sentidos e direções, mas que exigem do leitor ou "visitante" um envolvimento maior, uma disposição para "participar" do livro.

imagem: trabalho de João ModéHá fotos belíssimas, não só das obras (algumas, mesmo que não forneçam uma idéia precisa dos trabalhos que registram, funcionam muito bem como imagens em si), como também das redondezas e interior do hotel. É um livro para se "visitar" muitas vezes, pois sempre há algo a se descobrir que nos escapou nas "visitas" anteriores.

A integração entre as imagens de rua/interior do hotel, com os registros das obras é um dos pontos fortes do livro, pois recria a sensação de indivisibilidade entre a exposição e o local onde ela aconteceu. Foi muito acertado deixar os textos para o final do livro, após as fotos, para permitir que numa primeira visita, fique-se imerso nos ambientes e situações propostas pelas imagens, sem a intermediação de explicações ou descrições.

Love´s House

Brígida Baltar, Carla Guagliardi, Chelpa Ferro, Eduardo Coimbra, Fernanda Gomes, João Modé, Laura Lima, Livia Flores, Marcos Chaves, Raul Mourão, Ricardo Basbaum, Ricardo Becker, Tatiana Grinberg.

Textos de Fausto Fawcett, Luiz Alberto Py, Luis Andrade e Raul Mourão.

Fotos de Beto Felicio. Design visual de André Stolarski. Coordenação editorial de Luis Andrade. Coordenação de produção de Luiza Mello.

AGORA, Casa da Palavra e Canal Contemporâneo
Patrocínio RIOARTE e FURNAS
12 x 18 cm, 224 p., ilustrado, colorido, bilíngüe (port. e ing.)
isbn: 858722054-3
R$ 25,00

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