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Paisagens Interiores
Guy Amado
A pintura tem se afirmado, nos últimos dez anos,
como o principal campo de interesse de Alexandre Alves. Nesse período,
sua produção tem apresentado amplo repertório
e uma considerável variação de soluções
estilísticas, refletindo as constantes - por vezes díspares
-inquietações que propulsionam o artista em seu processo
de trabalho.
Esse aspecto cambiante recorrente na obra de Alexandre parece ter
agora chegado a um momento de suspensão: detendo-se na exploração
de um motivo clássico do gênero pictórico, a
paisagem, o artista acena com novas possibilidades de interpretação
para o mesmo, na série Paisagens de Exceção.
Imprimindo alta carga de subjetividade em sua fatura, Alexandre
elabora um universo difuso, que gravita entre a composição
abstrata e a sugestão de uma figuração gerada
pelas instigantes formas cuneiformes que povoam suas telas e agenciam
as relações de planaridade e profundidade nessas peças.
Estas mesmas formas-figuras preenchem, obsessivamente, os
conjuntos de desenhos em nanquim que acompanham as telas. Desenhos
que indicam, na fatura minuciosa e em sua padronagem serial e repetitiva
- mas sempre singular - um procedimento compulsivo, ordenado e apaixonado,
por trás do ato de sua criação.
Personagens centrais desta empreitada pictórica, essas figuras
surgem originalmente da observação da natureza pelo
artista - um pouco como "árvores interrompidas"
- e evocam certa ambigüidade em sua conformação,
remetendo a um só tempo a uma qualidade orgânica e
a uma relativa "neutralidade" enigmática. No processo
pelo qual se tornam protagonistas destas pinturas, as formas-figuras
são gradualmente estilizadas até se converterem
em índices, elementos estruturais e fundadores de uma mitologia
pessoal.
O que se vislumbra nessas pinturas são paisagens interiores,
silenciosas, originadas menos por um interesse em transpor para
a tela aspectos que nos falem ao olhar pelas vias de apreensão
do mundo que por uma desprendida experimentação pictórica.
Onde a subjetividade é pontuada por certo lirismo e anuncia
uma nostalgia pelo objeto perdido da pintura. São paisagens
de não-eventos, explorando tempos e espaços que
extrapolam a objetividade de uma significação dada;
onde a sugestão de uma atmosfera onírica, entremeada
nas velaturas que constituem o campo da composição,
determina o lugar de uma ausência. E se o lugar dessa ausência
marca um vazio, é nesse limbo que a presença da imagem-memória
se faz, afirmando uma sensação de melancolia indefinível,
apenas intuída nestes densos campos de cor.
Não há nessa produção a pretensão
a qualquer comentário erudito; tampouco se pretende embutida
a alusão qualquer - dentre tantas - "crise" recente
da pintura. Assinala-se antes, pelas vias da experimentação
e da reinvenção, uma atitude de descompromisso e autonomia
para com uma noção compartimentada do fazer pictórico.
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